Salvador da pátria - Vasconcelos Mkt

Salvador da pátria

Um candidato apolítico

As pesquisas eleitorais feitas país afora, especialmente as qualitativas, não deixam dúvidas: em se tratando dos cargos majoritários, como é o caso da Presidência da República, o que o eleitor quer é um candidato que seja apolítico.

Significa que o pretendente, ou a pretendente, não pode ter nenhum envolvimento com a política, sequer uma sombra de corrupção pesando sobre seus ombros (o que é muito salutar), que não tenha nenhum problema com a justiça, ainda que seja uma pequena querela com o vizinho do condomínio por conta do seu pet, que não tenha qualquer tipo de mácula.

Superado esse primeiro filtro, o eleitor também quer, como mostram as pesquisas, um candidato que tenha atitude, capacidade de decisão, vigor e alguma experiência como gestor. Dito de outra forma, o que o eleitor busca, na verdade, é um salvador da pátria, um nome ungido pela Providência Divina, com poderes para resolver todas as nossas mazelas.

Sinto decepcionar, mas esse ser perfeito e imaculado, o escolhido que vai varrer a corrupção do país, acabar com as desigualdades, resolver os problemas crônicos na saúde e na educação, conseguir, num curto espaço de tempo, vagas para 12 milhões de desempregados, simplesmente não existe.

Um cenario para os oportunistas

Mas, infelizmente, estamos diante de um cenário que é extremamente fértil para os oportunistas. Não faltarão candidatos que vão se apresentar como esse salvador da pátria, que vão tentar se moldar exatamente ao perfil que o eleitor está buscando.

Gente que até ontem não tinha prestado nenhum serviço à sociedade, mas, por ser apolítico, vai entoar o canto da sereia. Alguns, provavelmente, vão encantar e atrair muitos ouvintes. O que vale dizer, vão conquistar uma parcela considerável dos eleitores, especialmente aqueles que não têm muita informação, menos escolarizados, que estão na casa dos milhões.

Tenho ouvido, com muita frequência, que a sociedade está inconformada (com a corrupção, com a roubalheira, com os privilégios, com os desmandos, com a violência etc etc etc), o que explicaria essa aversão aos políticos. O que vejo, na verdade, é uma sociedade completamente conformada, apática, que assiste passivamente uma enxurrada de equívocos na relação entre o público e o privado, sem qualquer tipo de reação.

Uma sociedade intolerante

O que temos, penso, é uma sociedade intolerante. Mas essa intolerância, por enquanto, está restrita ao sofá da sala de estar do brasileiro – ou sob o perverso anonimato das redes sociais. As manifestações que assistimos semana passada Brasil afora em protesto pelo assassinato da vereadora carioca Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes são, na verdade, um ponto fora da curva, algo esporádico.

Ainda que o eleitor não goste, não há solução fora da política. Podemos concordar que o atual sistema político está apodrecido e que precisa ser substituído, revitalizado, talvez ressuscitado. Demonizar a política, como estamos assistindo fazer alguns políticos e até mesmo alguns partidos, com a ajuda de uma parcela da imprensa e das redes sociais, é o pior dos mundos.

Nesse particular, que se faça justiça aos partidos de esquerda. Ao contrário de outras legendas, que fazem um discurso oportunista para simplesmente agradar ao eleitorado, esses partidos ditos mais progressistas não estão jogando sua história no lixo – ainda que, no caso de alguns, talvez haja mesma a necessidade de uma refundação. Portanto, seus candidatos não serão apolíticos.

Sejamos francos: você não pode ser cozinheiro sem saber cozinhar. Da mesma forma, não é possível ser prefeito, governador, presidente da República sem fazer política. O resto é lero-lero ou, como costumamos dizer lá na minha região, o Norte de Minas, é conversa pra boi dormir.

Paulo Vasconcelos

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