Redes sociais eleições - Paulo Vasconcelos

Redes sociais e eleições

Tenho percebido uma excitação exagerada de alguns grupos Brasil afora, aí incluída uma parte considerável da mídia, ao tratar do impacto da internet nas eleições de 2018. A aposta maior é que as chamadas redes sociais serão o principal protagonista na próxima disputa.

Não acho que serão

Evidente que não dá para negar que a relevância da internet vem crescendo a cada eleição. Mas daí a dizer que elas terão papel preponderante no próximo pleito, como venho ouvindo, já é um exagero.

Vamos aos números, que podem ajudar a mostrar que o peso das redes sociais na próxima disputa eleitoral ainda será relativo. O Ipsos, um instituto de pesquisa fundado em 1975, em Paris, ouviu 30 mil pessoas de 38 nações para saber como elas percebem seu país e seus compatriotas.

O resultado, divulgado recentemente, mostrou que o Brasil ficou em segundo lugar no ranking de “percepção errada da realidade”, atrás apenas da África do Sul.

De cada 100 pessoas, quantas têm smartphones no seu país?

Esta foi uma das perguntas feitas pelos pesquisadores. No Brasil, os entrevistados afirmaram julgar que 85 de cada 100 brasileiros têm esse tipo de celular. Na verdade, apenas 38 em cada grupo de 100 têm smartphone no nosso país.

E quantos têm Facebook, a rede social com mais de 1 bilhão de usuários ativos em todo o mundo?

Os brasileiros responderam que, em cada grupo de 100 pessoas, 83 têm conta no Face. Na verdade, 47 estão nessa rede, o que significa que mais de 50% da população do país estão fora do espaço que é considerado o mais relevante para influenciar eleitores via internet.

Só esses dados já seriam suficientes para que qualquer candidato saia da frente do computador, smartphone ou tablete na maior parte do dia e procure o contato direto com seus eleitores.

E especialmente um espaço no horário de TV e rádio. Evidentemente, não se trata de desprezar as redes sociais. Mas que elas estejam em seu devido lugar.

E o que dizer das fake news, as notícias falsas que encontram na internet o ambiente mais fértil para prosperar?

Este é outro problema (ou um dilema?) que precisa ser enfrentado, embora de difícil solução no mundo do anonimato. No clima de guerra que se vive em uma eleição, como saber em que conteúdo veiculado nas redes sociais dá para confiar?

E recorro a outra fonte de extrema confiança para mostrar como o fluxo de informação na internet pode ser perigoso em momentos importantes da política nacional. Levantamento feito pelo Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas de Acesso à Informação da Universidade de São Paulo (USP) mostrou que na semana da votação do impeachment da então presidente Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, em 2016, três das cinco notícias mais compartilhadas no Facebook eram falsas.

Mas,  boato e noticia falsa não andam sozinhas. Se o conteúdo da noticia falsa interessa a quem esta compartilhando, ela será compartilhada.

Está é a pior face dos usuários das redes.

Então, para usar uma expressão muito ao gosto dos mineiros, é preciso “ficar de orelha em pé” com as redes sociais. Em contrapartida, de acordo com o Ibope, a televisão é o meio de comunicação mais popular do país.

Exatamente 96% dos brasileiros, de acordo com o instituto, têm pelo menos um aparelho de TV.

Inegável, portanto, que a televisão ainda será a protagonista das campanhas na próxima eleição. Estou dizendo, com isso, que a internet e suas redes sociais devem ser desprezadas pelos candidatos? Claro que não.

Mas digo que o candidato que estiver pensando que será possível ganhar uma eleição usando como arma apenas a internet vai “dar com os burros n´água”.

Paulo Vasconcelos

One comment

  1. Como pesquisadora concordo! Apesar de não podermos descartar o seu papel, exceção aos eleitores radicais sejam de qualquer tendência. A eleição desse ano passará por um série de variáveis, muitas ainda desconhecidas. Não será certamente como a de 1989! Os eleitores já estão vacinados, vão querer garantias. Quanto às fake news terão impacto maior nos “seguidores inflamados” ou nos sempre indecisos de última hora. Parabéns pelo blog!

Deixe uma resposta