A cara da democracia no Brasil - Paulo Vasconcelos

Partidos x Nomes

Em dezembro de 2017, publiquei aqui no Blog um artigo cujo título era “O peso (zero) dos partidos em 2018”, em que abordava o papel secundário que as agremiações partidárias vêm desempenhando nas disputas eleitorais. Tratava-se, naquele momento, seis meses atrás, de uma mera percepção, com base na minha experiência de cerca de 30 anos com comunicação política.

A Cara da Democracia no Brasil

Pois acaba de ser publicada a pesquisa “A Cara da Democracia no Brasil”, feita pelo Instituto da Democracia e Democratização da Comunicação, que não só confirma minha impressão, como dá mais evidências sobre a gravidade do quadro. O índice de desconfiança dos brasileiros nos partidos políticos quase que dobrou nos últimos quatro anos. Em 2018, conforme a pesquisa, 8 em cada 10 brasileiros não têm “nenhuma confiança” nas agremiações partidárias, o que é considerado recorde na nossa história.

Desilusão dos brasileiros

No mesmo texto de dezembro passado afirmei que a desilusão dos brasileiros com os partidos havia se agravado, provavelmente, por conta de descobertas recentes de que a grande maioria das legendas e seus dirigentes se comportaram de uma maneira não muito republicana nos últimos tempos.

A pesquisa do Instituto da Democracia, feita por especialistas de renomadas instituições de ensino, como Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade de São Paulo (USP), Universidade de Brasília (UNB), entre outras, mostrou que 68,3% dos entrevistados (2.500 pessoas, de todo o Brasil) disseram que a principal razão pela antipatia que nutrem pelas legendas é a “corrupção existente nos partidos”.

Qual o impacto desses dados nas eleições de outubro?

Como venho falando em textos anteriores, o nome do candidato, mais do que em disputas passadas, terá peso ainda mais decisivo no resultado. Não fosse a exigência da legislação eleitoral, a grande maioria dos candidatos, se pudesse, nem mencionaria, na sua campanha, a qual partido está filiado.

Qual é mesmo o partido do presidenciável Jair Bolsonaro, que nos levantamentos sem o ex-presidente Lula (cuja chance de ser candidato é próxima de zero) aparece como o preferido do eleitorado? Quase ninguém sabe. A pesquisa do Instituto da Democracia mostrou que 48,4% dos entrevistados responderam que “os partidos não representam os seus interesses”.

Portanto, não tem a menor importância, para o eleitorado do Bolsonaro, o partido que ele escolheu. O que importa é que seus seguidores acreditam, por conta do seu discurso ultraconservador, por vezes homofóbico e xenófobo, a favor de uma política mais dura na segurança pública, com direito a flexibilização do porte de armas e até pena de morte, que ele é a melhor alternativa para comandar os destinos do país a partir de 2019.

Outro dado da mesma pesquisa confirma a relevância do nome: o PT é apontado como o partido com o maior percentual de simpatizantes, mesmo assim por uma parcela pequena dos entrevistados (8,7%). Mas Lula, que o partido insiste em dizer que é pré-candidato a presidente, mesmo já tendo sido condenado em segunda instância, tem, quando seu nome é testado, cerca de 30% da preferência do eleitorado.

A eleição ainda está em aberto

No caso da eleição presidencial, não é exagero dizer, todos os nomes que aparecem melhor posicionados nas pesquisas de intenção de voto são muito maiores do que as legendas onde estão abrigados (alguns circunstancialmente). Faltando cerca de 90 dias para o primeiro turno, é possível afirmar que a eleição ainda está em aberto. Vai vencer a disputa aquele que convencer o eleitorado (numa campanha curtíssima, de apenas 45 dias) que é o mais experiente e capaz de tirar o país do atual atoleiro em que se encontra e que inspirar mais confiança.

P.S – A quem interessar possa, a pesquisa “A Cara da Democracia no Brasil” pode ser acessada aqui:
https://docs.wixstatic.com/ugd/a46f9a_8c0791397fc241809597841978a55f90.pdf

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