O velho e o novo na política - Paulo Vasconcelos

O velho e o novo na política

Brasília vive dias tensos por conta do embate entre o Executivo, sob o comando do presidente Jair Bolsonaro, e o Legislativo, presidido pelo deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ). O ponto central da discórdia seria a reforma da previdência. Maia reclama que falta articulação do governo para aprovar a proposta. Já Bolsonaro alega que, uma vez que enviou o projeto, a bola agora está com o Congresso.

Por traz de tudo isso, entretanto, está um outro debate, que considero extremamente inútil, que gira em torno das chamadas “velhas” e “novas” políticas, muito estimulado, ao que parece com as bênçãos presidenciais, pela militância bolsonarista nas redes sociais. Os “velhos”, para essa turba, precisam ser expurgados.

Há também uma distorção na origem desse debate

Os mesmos eleitores que elegeram Jair Bolsonaro presidente da República, por entender que ele era melhor alternativa naquele momento, elegeram os 513 deputados federais e dois terços do Senado, que compõem o Congresso Nacional.

Qualquer político classificado como integrante da velha política tem legitimidade para exercer o seu mandato, porque foi escolhido livremente pelo voto popular. E assim como deve ser respeitada a escolha de Bolsonaro para presidente da República, é preciso acatar as opções do eleitorado para o parlamento. Isso é democracia.

A maioria dos eleitos, aí incluído Rodrigo Maia, está na política faz tempo e os eleitores que neles votaram não estavam em busca de renovação. Por certo, sentiram-se bem representados e decidiram renovar seus mandatos. Rotulá-los como velha política é, no mínimo, miopia, uma vez que uma parcela considerável da sociedade quis assim.

Ora, os eleitores que escolheram Bolsonaro para presidir o país são os mesmos que elegeram o Congresso Nacional que temos hoje. É assim o regime democrático e é com esse parlamento que o Executivo precisará se relacionar, goste ou não dele.

Vejo pela imprensa que o presidente está resistindo em negociar com o Congresso Nacional, inclusive a aprovação da reforma da previdência, sob o argumento de que os entendimentos com o parlamento sempre se deram na base do “toma lá, dá cá”, uma prática da “velha política” com a qual ele não quer compactuar. Sua negação, por consequência, representaria a “nova política”.

Afinal, o que é a nova política?

Dá para chamar de novo a prática de “laranjas eleitorais”, “rachadinhas” de gabinete, o viés doutrinário que parece tomar conta do Ministério da Educação, a ideologização das relações internacionais, menosprezando, por exemplo, a China, o nosso principal parceiro comercial, sob o argumento tosco de que o país é comunista?

A reivindicação de partidos aliados por espaço no governo não é, por si só, ilegítima. No nosso regime presidencialista, é preciso que sejam feitas coalizões, o que significa a participação dos aliados em diversos níveis de poder, desde que sejam feitos com base em acordos republicanos, em projetos sólidos e transparentes. E, por óbvio, que passem longe do fisiologismo.

Ademais, é preciso pensar que talvez Bolsonaro não tenha sido eleito para fazer a “nova política”. O mais provável é que ele tenha sido eleito simplesmente para retirar o PT do poder.

Portanto, com quase 100 dias já está instalado no Palácio do Planalto, está passando da hora de mostrar a que veio.

por Paulo Vasconcelos

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