O fantasma do não voto - Paulo Vasconcelos

O fantasma do “não voto”

Tem chamado a atenção de quem acompanha o processo eleitoral, o grande contingente de eleitores que indica, nas pesquisas de intenção de voto, que vai votar em branco, nulo ou se abster, que os especialistas costumam chamar do “não voto”. Como profissional de comunicação que trabalha com campanhas políticas há mais de 30 anos, devo confessar que o cenário é assustador.

A metade do eleitorado brasileiro não vai participar ?

Embora as pesquisas sejam um retrato do momento e esse cenário possa mudar até a data das eleições, em 7 de outubro, o que estamos assistindo agora é que quase a metade do eleitorado brasileiro está dizendo que não vai participar da corrida para escolher o presidente da República, governadores, senadores e deputados federais e estaduais.

Traduzido em números, significa dizer que aproximadamente 75 milhões de eleitores não querem participar do processo eleitoral. O que aconteceu recentemente nas eleições suplementares no Amazonas e em Tocantins só confirma o sentimento, que é nacional. Chamados para escolher novos governadores, metade do eleitorado desses dois estados mandou um recado duro para a classe política. No Amazonas, quase 50% dos eleitores ou não apareceram ou preferiram voltar branco/nulo. No Tocantins, esse índice chegou a 52%.

O eleitor está muito desapontado, desiludido, …

Esse tipo de manifestação indica, claramente, que o eleitor está muito desapontado, desiludido, frustrado, revoltado até, com a política e, especialmente, com os políticos. Razões, obviamente, não faltam. Mensalão, petrolão, corrupção, entre outros, foram ingredientes que serviram como munição para alavancar um movimento de criminalização da política, patrocinado, em parte, – é preciso que se diga – por setores da grande mídia. O resultado é que a classe política, muito provavelmente, nunca viveu um momento de tanto desgaste como o de agora.

Explicações de ordem mais profunda sobre o comportamento do eleitorado é tarefa para sociólogos e outros especialistas. Mas creio que os profissionais de comunicação, como é o meu caso, estão diante de um grande desafio, que é convencer metade dos eleitores de uma das maiores democracias do mundo que sua participação no processo eleitoral é fundamental.

Uma campanha curtíssima na TV e no rádio

Há ainda outro grande obstáculo para superar esse desafio. Teremos uma campanha curtíssima na TV e no rádio, espaço que poderia ser usado para, de alguma forma, motivar as pessoas a sair de casa para exercer o sagrado direito ao voto e tentar convencê-las de que seu envolvimento pode, sim, fazer a diferença.

Portanto, mais do que os profissionais de comunicação, esse desafio deve ser encarado também pelos veículos de comunicação. Que não devem esperar o horário gratuito do período da campanha, mas começar agora, já, a tentar mobilizar a sociedade, aproveitando sua audiência, para mostrar que nossa democracia só vai se fortalecer com a participação cada vez maior do cidadão.

Impossível viver numa democracia sem política

Por mais que não gostemos da grande maioria dos nossos políticos, impossível viver numa democracia sem política. Fora da política, na verdade, existem dois caminhos tenebrosos. Um deles, a tirania. Vide as manifestações de grupelhos patrocinados por gente mal informada pedindo intervenção militar. O outro o populismo, perfil em que alguns dos pré-candidatos à presidência poderia se encaixar perfeitamente.

Vamos, então, trocá-los

Motivos não faltam, de fato, para que estejamos acabrunhados e decepcionados com uma grande parcela dos nossos políticos. Vamos, então, trocá-los. Mas isso só pode ser feito dentro da política, com o voto de cada um dos brasileiros.

Portanto, comunicadores e veículos de comunicação, uni-vos. Vamos ajudar a fortalecer a nossa jovem democracia. Afinal, a boa política é uma construção de todos.

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