Irresponsabilidade - Paulo Vasconcelos

Irresponsabilidade

Os números, por si só, dão a dimensão da tragédia. Em pouco mais de quatro meses, 38 pessoas morreram de dengue em Minas Gerais neste ano. Em todo o ano de 2018 foram registradas oito mortes pela doença no estado, conforme informações da secretaria estadual de saúde. Também no ano passado foram registrados 28 mil casos prováveis de dengue em Minas. Este ano, pasmem!, os casos prováveis já passam de 247 mil.

De quem é a culpa?

Evidente que o primeiro culpado é o famigerado Aedes aegypti, esse mosquitinho insuportável que nos atormenta já faz anos. Podemos dizer também que a culpa é de todos nós, uma vez que está provado que 80% dos focos do mosquito estão dentro das nossas casas, o que significa que não estamos fazendo direito a nossa parte.

Mas não dá também para eximir de culpa o governo de Minas Gerais e uma parcela considerável das prefeituras por essa verdadeira catástrofe que se abate sobre os mineiros. Explico. Tradicionalmente, o governo do Estado, por meio da secretaria de Saúde, faz, a cada início de ano, uma campanha de mobilização e informação para que a população colabore com o trabalho de combate ao mosquito. Neste ano, o governo que se apresenta como “novo” decidiu não fazer. Motivo alegado? Falta de dinheiro.

Ora, é de um simplismo absurdo essa justificativa. Primeiro porque, como bem dizia o ex-presidente norte-americano John F. Kennedy, “governar é definir prioridades”. Será que assegurar a vida dos mineiros não é prioridade? Mas vamos considerar que aceitamos essa justificativa tosca de que falta dinheiro, uma vez que a situação financeira do Estado é mesmo de calamidade. Mas quem disse que, para fazer uma campanha de utilidade pública, que pode salvar dezenas de vidas, é preciso, necessariamente, gastar dinheiro?

Lembro que no início de 2003, Minas Gerais foi castigada por fortes chuvas que deixaram em vários cantos do Estado milhares de desabrigados e um cenário de terra arrasada. A situação financeira naquela época, assim como hoje, era desoladora. Mas o que fez o então governo, que acabava de assumir com os cofres vazios?

Minas Solidária

Chamou todos os veículos de comunicação e pediu ajuda para encabeçar uma campanha, batizada de Minas Solidária, para arrecadação de donativos e fundos para reconstrução das casas destruídas. Todos os meios de comunicação do Estado, sem exceção, aderiram à causa. Resultado: mais de dois milhões de donativos e recursos que foram usados para construir quase mil casas para os desabrigados.

Quanto custou? Zero. Desde a criação, produção, distribuição e veiculação da campanha, trabalho que envolveu centenas de profissionais, tudo foi feito de forma voluntária. O atual governo não poderia ter feito algo semelhante? Sou capaz de apostar que, assim como aconteceu em 2003, todos os veículos de comunicação do Estado, jornais, rádios, TVs, portais de notícias, estariam engajados nessa causa.

Então, pode até ter faltado dinheiro ao governo de Minas para fazer uma campanha que mobilizasse a população para somar esforços na luta contra a dengue. Mas faltou, sobretudo, criatividade, vontade política, solidariedade, empatia. Do ponto de vista técnico, quanto custaria uma campanha que atingisse todo o Estado? É muito fácil saber, uma vez que existem critérios bem objetivos para chegar ao valor. Mas quanto custa a vida de 38 pessoas (e, infelizmente, é quase certo que outras mortes virão)? Essas, não têm preço.

A crítica ao governo do Estado pode ser estendida para a maioria das prefeituras municipais. Em Betim já morrem 10 pessoas por dengue, em Uberlândia outras 8, em Belo Horizonte mais 4, em Contagem outras 2. Fora as ações cotidianas e obrigatórias que as prefeituras fazem, não se tem notícia de uma ação diferenciada de boa parte dos poderes municipais contra o Aedes aegypti.

Longe de mim acusar o governo do Estado e as prefeituras como responsáveis por essas mortes. Mas estou absolutamente certo de que uma campanha com informações e de mobilização da população poderia ter evitado alguns desses óbitos. Que fique de aprendizado, embora o preço que estamos pagando seja, certamente, bem maior do que o custo nominal da campanha que o governo optou por não fazer.

Paulo Vasconcelos

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