A in utilidade das pesquisas

A (in) utilidade das pesquisas

Quem acompanha com mais frequência o noticiário político deve estar percebendo que vem aumentando, semana após semana, o número de pesquisas de intenção de voto, seja à Presidência da República ou governos estaduais, para uma eleição que só acontecerá daqui a um ano. A bem da verdade, esses levantamentos agora servem a alguns poucos propósitos: ajudar a aplacar a ânsia dos veículos de comunicação por novidades diárias e, muito especialmente, passar a impressão de que este ou aquele candidato tem chances.

O que estamos vendo, ouvindo ou lendo na grande mídia são números que apontam que fulano está em primeiro, beltrano em segundo, sicrano em terceiro na disputa. Às vezes, os institutos se dão ao trabalho de fazer cruzamentos, indicando uma possível disputa entre contendores que, para quem entende um pouco do riscado, sabemos que não irá ocorrer.

Em outros casos, apresentam uma lista com candidatos conflitantes (de um mesmo partido ou grupo politico, por exemplo), o que é impossível, ou ignoram potenciais candidatos com capacidade para mexer no tabuleiro e alterar de forma expressiva o resultado da pesquisa. E ao fim e ao cabo, temos a informação de quem está na frente e quem está atrás.

Vale ressaltar que, não raro, muitos dos candidatos que aparecem à frente nas pesquisas são os maiores estimuladores/financiadores desses levantamentos. Afinal, a liderança facilita o diálogo com a base política, com o empresariado, com a imprensa e, por óbvio, contribui para inflar o ego dos políticos, que têm na vaidade o seu principal combustível.

A falta de analise dos resultados das pesquisas

Pra que servem esses números frios, de forma nua e crua, de determinada pesquisa de intenção de voto?

Poderia compará-los com o resultado de um exame de sangue feito em um laboratório. Sem a orientação do médico, o profissional capacitado para analisá-lo e fazer a recomendação adequada ao paciente, não tem utilidade alguma.

No caso das pesquisas, sem uma análise adequada daqueles números, que possa ajudar tanto o leitor/telespectador como os políticos a entenderem o seu contexto, bem como os cenários que podem ser construídos a partir deles, a pesquisa quanti (para usar um jargão muito ao gosto dos especialistas) tem pouca utilidade neste momento.

Cenario politico das proximas eleiçoes

Há um dado de grande relevância para a eleição do próximo ano, ainda pouco explorado pela imprensa, que é o prazo de filiação ou de mudança de partido (abril de 2018). Significa que novos postulantes poderão entrar no processo, alguns com potencial para promover uma reviravolta na disputa – o que só reforça o argumento da pouca utilidade das pesquisas nesse momento. Ouso dizer que uma parte considerável de candidatos que estarão nas urnas em outubro do próximo ano ainda não deu o ar da graça.

Alguns porque ainda não decidiram se vão mesmo participar da batalha e outros porque estão sendo aconselhados por experientes marqueteiros a retardarem a entrada na guerra (sim, eleição é sempre uma guerra!). Assim, no caso desses segundos, evitam o desgaste antecipado e se protegem da “pancadaria on-line”, que tem sido a maior contribuição das redes sociais na política até agora.

Recuemos um pouco no tempo, mais precisamente para outubro de 2015, um ano antes da eleição municipal de 2016. Naquela época, com base apenas em dados de pesquisa quantitativa, era impossível afirmar que, um ano depois, Alexandre Kalil seria eleito prefeito de Belo Horizonte e João Dória seria o mandatário na capital paulista. Quero dizer que, como faltam praticamente 12 meses para as eleições de 2018, tem muita água para passar por debaixo desta ponte.

Evidentemente, as pesquisas são uma ferramenta fundamental para os profissionais de comunicação, aí incluídos a imprensa e os marqueteiros, para os políticos e também para os eleitores. Mas é preciso saber que tipo de levantamento está sendo feito, com qual propósito, e entender que as chamadas quantitativas, hoje, são apenas o retrato do momento – que não será, necessariamente, o mesmo um ano depois.

Normalmente, grandes corporações, bancos ou instituições sempre contratam milhões em pesquisas eleitorais. Costumam lidar com esses temas sem paixões e querem avaliar cenários para antecipar o alinhamento dos seus negócios. Mas para tentar saber quem vai ganhar e quem vai perder, contratam também a análise, o diagnóstico. E assim, fora o imponderável, como a morte de Eduardo Campos em 2014, que colocou Marina Silva na disputa presidencial (e quase chegou ao segundo turno), as chances de acerto são bem maiores.

Portanto, para quem quer saber (aí incluídos os veículos de comunicação) quais os cenários mais prováveis para a eleição de 2018, precisa ir atrás (ou contratar) da análise. Se quiser ampliar a chance de acerto, recorra a pesquisas qualitativas (as qualis), que são capazes de levantar dados sobre as motivações do eleitorado, de compreender e interpretar determinados comportamentos e tendências, de identificar a opinião e expectativas do eleitorado. Costumam ser verdadeiras “bolas de cristal” para analisar o potencial de uma candidatura.

Resumo da ópera: pesquisa quantitativa, no momento, além de pautar veículos de imprensa e ampliar o cacife de alguns candidatos, serve apenas para fazer futurologia. Ou, no popular, não passa de chutômetro.

Paulo Vasconcelos

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